Às vezes acho que a palavra “solidão” nasceu contigo.

Se não soubesse, dir-vos-ia irmãs. Durante anos nunca soubeste o seu nome, mas sentia-la no sal das tuas lágrimas e nos soluços que se contorciam no teu peito. Sentia-la nos peluches que apertavas sempre que lamentavas sem razão a tua sorte, ou nas horas em que te sentavas sozinha no quarto. Sabia-la nos livros que nunca te deixavam, na ponta das canetas e na sua tinta, mais ainda nas histórias em que te fazias protagonista. Sabia-la nas caminhadas, no percurso sabido que te levava a casa. Sabia-la nos abraços que te mitigavam a agitação da alma e te reduziam ao choro, sentia-la nas conversas que não conduziam a lugar algum. Percebia-la em todas as despedidas que sempre odiaste, na varanda que te afastava do quarto, na música de listas tristes ou alegres. Nas notas que cantas a caminho da rotina e do diferente, se não faz ele parte de um quotidiano vivido. Sabia-la nas mensagens que não vinham e nas que foram, nos chinelos gastos quando chegas a casa e na monotonia silenciosa do amanhecer. Percebia-la nas birras que fazias e nas que fazes, no teu egoísmo e no altruísmo. Sentia-la nas mentiras que, afinal, até sabes dizer, ou nas verdades que te esforças por contar. E sabia-la nas pessoas, porque é aí que ela cresce, com raízes fundas e espinhosas.

E começas a questionar-te; até que ponto te magoa, esticando a tua força? Cresces com ela, criança, se nunca soubeste crescer? Arrepanhada pelos cabelos, dolorosamente, até ganhares mais centímetros até à maturidade. Não compreendes os sentimentos e não sabes se os queres, ou se a quiçá familiar indolência vaga não é preferível, suave, mortífera e misericordiosa. E quando te chamarem não estarás aí, como talvez nunca tenhas estado.

canção xii – do ser e da sua possível irmã.

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