Chove na janela e as gotas são traços translúcidos dentro e fora de ti. Sabes chorar em silêncio, e que bem que te sabe, viver das lágrimas num segredo corrente e salgado, quente com o sabor da tua dor. Sabes chorar enquanto fustiga a chuva o mundo, enquanto não há mais torrentes e as palavras se mesclam em paradoxos em que deixaste de acreditar no momento em que fechaste os olhos, e agora só ouves a solidão. Tudo se resume ao mesmo, a essa tristeza lancinante e maculada em que não deixa de haver a misericórdia maldita da esperança. Há tão pouco neste momento a sorrir-te, chora, pequena criança alegre, que não sabes como o fazer também.

Cala a música. Se não houver mais nada, os carros lá fora a sulcar a estrada molhada ancoram-te aqui, ao quarto tranquilo na casa silenciosa e ao tempo imóvel. Tempo que só pára quando falta te faz que siga, sem perder o rumo em direcção ao futuro e à distância. Chora, vamos, que se ninguém te compreender mais razão tens para chorar. Como se fossem precisas razões, não é? Chora porque o dia te esqueceu, e foste ignorada pelo embalo da vida; chora porque a garganta se te embarga e não te deixa chorar; chora porque te sentes a perder o que amas; chora porque não foste feita para despedidas, não para mais nenhuma, curta ou do tamanho da eternidade; chora de saudades, porque as despedidas forçadas que fizeste queimam-te a alma; chora porque neste pedaço de mundo estás só com uma gata adormecida; chora porque te falta o abraço que mais precisas neste momento; chora porque és uma criança sozinha e chorona. Chora. Chora até não quereres chorar mais, porque aí toma-te o sono. Chora até a respiração se enforcar na tua garganta com os soluços do teu mesquinho sofrimento. Vamos, chora. Até a cabeça ficar leve e os pensamentos abafados e a dor tiver escorrido até se perder nas tuas lágrimas e em todos os lenços que gastaste para enxugar a tua tristeza.

Mas não queres! Não queres que nada mude, não há tempo, não houve, se tudo mudar vais sentir-te pior, cansada, exaurida da felicidade. Não te vás, alegria. Fica mais um bocadinho, preciso de ti. Não me deixes, por favor. Tenho medo de não te encontrar se te perder outra vez. Fica, alegria.

grito ix – da angústia incansável do ser.

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