A luz da tarde não te aquece porque não é tua. Não te toca, não te vê, e o quarto onde estás ainda é feito de escuridão e tristeza. As vidas lá fora não são tuas nem te roçam, ao de leve, se não com sons que não escutas. Teu é este abismo onde o tempo não corre e onde te queres deitar. Tua é esta divisão que não sonha nem vive porque não deixas, não queres, é um esconderijo à vista de todos. E, infelizmente para ti, tua és tu, que te arranhas e puxas na esperança de ficares aqui e de te perdoares. Os teus dedos já não tecem palavras que cheguem, já não espelham o que sentes nesse pedaço obscuro de ser que és. Não há perdão para ti, nem coberto com risos e canções e todos os finais de tarde que te esperarem. Já não sei onde foste, alegria. É em vão que te procuro e te estendo a mão, mas o céu azul só cospe indiferença e as janelas alheias inspiram solidão. Onde estás, alegria? Já te encontrei tantas vezes, mas foges e levas os meus sorrisos. Não vás novamente, preciso de ti. Preciso da força para me suster e dos suaves trejeitos com que tornas tudo mais fácil, nem que por uma instância leve que só me roça; mas está lá. Preciso de ti para me segurar à beira do abismo e lutar contra mim mesma, porque quero ficar cá em cima, mas se é mais calmo e silencioso lá em baixo… Não posso prender mais a mão que me segura, quando peso mais e mais até a única saída ser para baixo, para o fundo, para o nada.

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