É um tanto inverosímil a tua atitude, tão disforme que não te percebo. Não te compreendo, como nunca compreendi, que rompantes são esses que te dão e, consoante assim és, deixas de o ser. Mais vale perderes tudo de uma vez, esquecendo as contradições que te condenam a uma inquieta sensação de involuntária extenuação da alma. O que descobres são apenas paliativos, e os dias mitigam-te os males com rarefeita satisfação. Males, que males? Aqueles de que padeces com tamanha auto-compaixão que te surges enamorada de ti, adoro-te, odeio-te, pois que queres, então, se não te decides?

Quando souberes diz-me! Não quero mais saber de teus opróbios, que te estropiam por dentro com o rancor da rejeição, mas se a culpa é tua, para que te queixas? Era para ser grito, morreu entalado entre a solidão e a companhia adormecida perto de ti. Morreu e não morreu, que o sentes de garras cravadas na garganta, corrompendo-te de mórbido tom o que julgas sentir. Se tivesses a certeza seria mais fácil, mas pensar sempre te trouxe a dor da consciência, sim, que mais vale a imersão no sonho. Dormirias para sempre que nem herói marcado pelo trágico destino de ser escrito, dormirias a sua dúvida se não a soubesses tu, mas perguntas-te se dormir é realmente mais que fechar os olhos e largar âncora dos pensamentos. Soubesses que não existiam os sonhos de inconsciente consciência, e escolherias o sono. Decidiste-te antes pelo despertar todas as manhãs, que te cansa mas que se torna menos difícil porque não estás como antes, não és como antes, e a música sempre te salva, obrigada.

Se te perderes nos caminhos que tomas e que te deixam isolada do mundo por ti mesma mas sem intenção, então lembra-te, não te é difícil, que agora é só nessas alturas que tens de aguentar e que se não estás alguma vez assim, as dores são mais difíceis de suportar. Talvez não estejas ainda em casa, mas um bocadinho de casa está agora contigo, aninhado contra ti. Que não te caiam agora os pilares que te sustêm, que não se desfaçam as tuas forças pelas fraquezas que sentes. Que, perdendo quem possas perder, porque nunca soubeste manter amigos e estás fadada a deixá-los ou a ser deixada, não te percas em ti em violento turbilhão a quem falta o céu.

canção xi – da pequena canção do ser.

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