És tão fraca. Destróis-te debruçada sobre ti mesma; ao menos respira, pára os soluços, retoma-os. Respira. Sabes como é, sempre o fizeste. Mesmo quando tropeças pela casa vazia sem ver, engolindo o teu próprio sal num desespero que dói, que te arranca do peito as mágoas em abruptos rompantes. Dói. Mas respira. Sê portanto pseudo-mártir quebrada, com a tua propensão para a desfelicidade em ti e nos outros, e bem, toda a gente sabe que há dias maus, para quê pensar mais nisso? Mas não há a luz ao fundo do corredor, ou os passos amarfanhados com chinelos calçados, nem um pequeno esquecimento que te alivie a solidão. Dói. Acima de tudo, queres sair daqui, queres ir para casa, não queres a opressão que resulta de ficares só. E quem te oprime, afinal, se não tu? Fraca.

Entretens-te com pálida benevolência e, assim que cai o último contacto, assim que é tarde e se mostra o escuro com as luzes moribundas cujo fim sabes breve, caem as barreiras que levantas em ti mesma e choras, choras agarrada ao que te resta no momento, a ti. Dói. Perguntas-te por que dói tanto. Tem calma. Se dói agora, mais tarde será bonança, tranquilidade serena para a alma. A solidão nunca fez mal a ninguém. É só um bocadinho, pequena chorona, já passa. Se não queres pedir ajuda a ninguém, ou sequer companhia que seja, abraça a Lizzie até adormeceres, que também ela é um embalo suave, e se até fechares os olhos de vez não te pararem as lágrimas, então solta-as, vamos, nada de medos, pode ser que as chores todas e depois não mais haja para derramar.

E mesmo na solidão encontrada em ti mesma aquando do silêncio das palavras e gestos dos outros, aguenta!, sê forte!, que nunca é mais que um tempo, e todo o tempo passa, passa o tempo pelo tempo e não volta, se voltar é pior, ou, porventura, melhor;  este já passou e, incrédula em ti pelo teu grito que nunca soa mais alto que um murmúrio à tua alma, essência, pois que seja o que queres, que qualquer um serve, podes sentar-te na noite e perceber que o silêncio é só teu, mas que a solidão é do mundo. Descrever vida nesse teu plano mudo muda a cor do teu interior, e respiras agora com mais tranquilidade, choradas já quase todas as lágrimas.

grito viii – da solidão melancólica do ser.

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