Efemérides, retratos daquele passado que não cansa, por que havia de cansar? As palavras são sempre as mesmas, mas contudo, já ficou para trás, já foi, agora é uma comichão entranhada que, ao sacudir, se desvanece, porque nunca foi realmente importante, de facto. Foi aquele passado que agora quase nem isso é, é memória e ténue impressão, resquício de vestígio de marca imbuída em recordações. Nem parecem tuas, essas vagas fotografias, talvez a tua vida tenha sido de outrém, talvez tu tenhas sido de outrem, tu que nunca soubeste bem quando ser e quando deixar de o fazer, tu que usaste tanta máscara que, entretanto, perdeste as metáforas e enrodilhaste-te nelas, sem bem o saberes. Que intrínseca maldicência de ti mesma, mas sabes melhor que isso, verdade, e portanto podes perdoar-te até restares tu como senhora e dona do mundo. Para que queres o mundo, quando não te governas a ti?

As flores da manhã enchem o ar de aroma suave que precede o estio, mas tu és da tarde, sempre da tarde, és um constante poente indignado que se espraia pela pele encarquilhada e envelhecida do tempo. E, contudo, em toda essa solidão da tarde que cai morosamente, há por vezes o sentimento amargo de não se ser nada em lado nenhum, em tempo algum. Noutras alturas, é-se tudo, e sempre e por todos. Que raridade, que pérola, sim, pérola, tesouros estimados, é isso que guardas, é a isso que chamas passado, é disso que te queres construir, mas acabas por ter de incluir o resto, o que te repugna, aquilo que queres repudiar e chamar de não-teu, de alheio, de inglório e impossível. Que contradição, queres apenas uma coisa mas acabas com as duas, as duas são uma, holístico todo e una unidade, falta-te o sentido do que pensas, porque não te encontras, vogas e quebras-te num labirinto infalível onde o minotauro és tu.

Quantos passados queres, afinal? Podes ficar com o teu, se te servir, mas será sempre o mais adulterado, subjectivo, torces sempre tudo à tua maneira e juntas-lhes os passados dos outros, só que os dos outros não são teus e portanto é falacioso o teu sentir para trás. Cheira a chuva e a sol ao mesmo tempo, o vento sopra como o rio corrente e a tua delicadeza nunca existiu, sem subtileza não chegarás à harmonia que ambicionas. Procura a felicidade por ti nos outros, vivendo como tu na amabilidade do alien, pois que é a comunhão que conduzirá à utopia de cada um; não uma ilha, antes uma rede infinita e inextrincável de relações de trocas de alegria. E esquece, se preciso, o passado, porque as saudades não são inúteis mas podem tornar torpes os sentimentos do hoje.

canção viii – do passado do ser.

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