Que vergonha, não susteres o sorriso como deve ser, não te deixares construir alegremente durante as horas mais árduas. Não distingues uma dor da outra, afinal cabeça e  mente e  coração e viver são sempre o mesmo, esquece que te reges pela tua felicidade e perde-te, cada vez mais, não sabes por onde vais nem como sair daqui. Esperas que seja apenas mágoa física, que passa quando acordares de manhã, mas a manhã prende-te como te perdes e sentes um aperto no peito, feito da inutilidade do que te crês e do que vês quando, na escuridão da ausência de luz, te olhas ao espelho que ficava bonito rachado, porque assim é de uma inutilidade que apenas serve para compores o cabelo. Delongas-te no leito tentando esticar as horas, mas elas arrastam-se depressa e nunca as agarras como deve ser, chega a hora e o despertador tocou e tens de te levar até onde tens de ir, sem que, agora, sem que antes te tenha ocorrido, se torna claustrofóbico e pleno da incapacidade de te preencher.

Vamos, já chega! As lamúrias não te trazem nada, mas fingir-te alegre custa, como custa a insincera compreensão ou a acusação que não mereces, desta vez, por todas, não mereces! Atinge-te mais facilmente a palavra demarcada a irritação e quê! que teoria, essa tua, a de que toda a gente, um dia, poderia querer saber o que és! Loucura a que te corre nas veias, aquelas… Não, mais não, que mácula irrisória que te desvanece, a janela é já ali mas não podes sair, não podes deixar as salas decrépitas para o sol, ou o calor temeroso que enxergas mas não distingues, porque se o distinguisses já sabias qual a forma para o combater.

É tão tarde, vai dormir, tens que fazer! Mas dormir é desistir, e se pudesses dormias hoje e sempre e deixavas-te de heresias e sacrilégios que não bastam a ninguém. Quebram-se-te as pálpebras, bruxa de auto-tormentos, um dia arranjo-te uma máquina de torturas para te entreteres. E nada de pensamentos masoquistas, não, é apenas complacência pela tua estima que te impões e que nunca sabes se é ou se deixou de ser. Já é tarde, se dormires passa-te o aperto no peito, sempre que procuras no imediato parece tudo distante e demasiado longínquo para as tuas míseras forças.

grito vi – da claustrofobia do ser.

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