Quero que seja uma canção, não um grito. Recuso as súplicas minhas, não as ouso sequer proferir porque são imerecidas e impremeditadas, mas premedito-as e retenho-as, não valem a pena. Sim, é uma canção, não um grito nem um chorrilho de pragas que desmancho sobre todas as imperfeições que conheço, tantas; oh, tantas. Não, é de uma previsibilidade surpreendente que, por ser previsível, não espanta. Antevê-se (claro, o futuro!) de forma subtil, falta a turbulência de fugas ao quotidiano que prende mas que é a indispensável estabilidade, criança adulta dentro do tempo.

Talvez seja mesmo isso, um outro eu dentro de mim. Reprimo-o com a facilidade manchada pela companhia, aquela que depende do ser do outro e do estado do mundo, ou do tempo, porque hoje chove! Sim, chove a transparência crida por todos mas amada por ninguém, tirando quem devora as tristezas alheias e as toma como suas, sem nunca, jamais, compreender os outros (talvez porque não se compreenda a si mesmo, mas quem o faz? E então todas as teorias perdem o significado, ora, nunca fazes sentido! Cuida-te). Não és assim, não queres ser assim, mas é o que acabas por ser, aquilo contra o qual tão traiçoeiramente lutas, negligenciando os palpites de outros e as tuas desventuras e aventuras, porque te esqueces sempre do que és tu e do que é alheio.

Que resquícios de individualidade perdes por ti, quando afinal és mais que uma e tens tantos humores quantos os tempos do tempo? És crítica severa a ti mesma, mordaz e aguçada, mas amas-te consoante o passar dos dias e as vaidades que te permites inconscientemente, vogando feita de mentiras e de nada. E falta-te aquilo, a boa disposição de que padeces, que talvez seja estultícia em forma de ti. Quero que isto seja uma canção, mas é ténue.

canção vii – da heteronímia do ser.

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