Não sabes bem o que fazer. Rasga-se-te o peito de tremores quando acordas a meio da noite, quase madrugada, não estás desperta e ainda tens os pés imersos no sonho, pesadelo, o que lhe quiseres chamar, e daí parece-te tão real que não vale a pena tentares evadir-te naqueles momentos, naquele centro de crenças efémeras ou talvez nem tanto. Desperta em ti um desejo aterrorizador de não chorar mas, ao mesmo tempo, de derramares as lágrimas, e ficas indecisa quanto ao que fazer. Que te faz falta algo tu sabes, mas o que é não consegues definir, ou preferes não o fazer, porque se o conseguires, bem, tens culpa, não é? Não queres ser culpada, não queres admitir que o te consola é tão efémero e imperfeito que não te basta para os momentos em que tornas dual, és tu mas és tão dupla que não te sabes definir, como nunca soubeste. Queres mas não queres, chorar, não chorar; o mundo é teu mas nunca foi, porque não o soubeste aceitar, não o soubeste desejar como era suposto desejares o mundo.

Na escuridão da antemanhã pretendes que não há nada para além da vida vazia que está entre o sonho e a realidade, o apagar das brasas e aclarar da mente; para ti a noite sempre foi mais assustadora. Não há nada mais que o espaço translúcido e ténue que compõe as trevas rasgadas de entranhas de luz que nunca chegam a germinar. Há no teu quarto um lugar que não é preenchido pela tua respiração e que, nas horas de sono, cheira a putrefacção imaculada e enfeitada de laços e renda. A companhia que resta nas noites é escassa e apenas aquece o corpo, não chega para consolar os sentidos ou sentir a tranquilidade da verdade que te atrofia tanto a razão.

Não me deixes. Que súplica inserena e amedrontada, dirijo-ta pois sei que talvez, quiçá, porventura, a oiças e me garantas mais uma vez que não, que nunca saíste de perto de mim, que há um fado traçado para nós e que é de justiça. Não quero dizer como me sinto, isso apenas agrava a marca que me atraiçoa. E se há uma pessoa a quem o orgulho me permite pedir ajuda, bem, já é tarde, o cansaço dos outros não corresponde ao meu, nunca é o mesmo, não é de bom tom importunar o alheio com o narciso, restam pois então ecos, que são estas palavras escritas.

grito v – das noites do ser

Anúncios