As estradas perdem-se todas por rumos que não conhecemos e que não vamos conhecer brevemente. Não vamos saber o que se estende para lá das linhas que partilhamos, das vidas que temos e que deixamos despojadas dos outros, esquece que viveste, esquece que sentes, esquece que sonhas e que há outros, não há mais ninguém, para quê preocupares-te? Que desprazer o de crescer sob inócuas preces, de todas as que disseste ainda nenhuma atingiu o alvo, nenhuma deixou mais que um rasto cansado que se desmanchou por ser tão ténue e não iluminar mais que tu mesmo. Que crueldade a de desviver tudo, a de ignorar os passados de encruzilhadas e seguir os trilhos cheios de nada e repletos de vazio. Se até o vazio é mais crente e menos desdenhoso da vida alheia!

Correm as solas desgastadas pelas pedras pela gravilha, rebola, rebola, resvala até ao horizonte que nunca mais chega, nunca mais lá chegas. Trocas os caminhos de relva e chuva pelos de alcatrão e sol dourado, as inesperadas decepções pelas ilusões amargas que nunca chegas mesmo a compreender. Que te direi mais que não queiras ouvir, se também não o quero dizer? Se sinto as palavras mais que perdidas, todas elas se foram e encalham na língua de mar, de oceano, de mundo, entre nós, afogam-se e ficam no fundo, esquecidas da memórias, escondidas do tempo e Ser.

Talvez já tenha ficado tudo para trás e o significado seja um sopro de lamparina a extinguir-se de vez, ou talvez apenas seja o fumo o que resta, o pavio apagado e o ar escuro manchado de nada. Tirem-me daqui, não quero perder-me na escuridão outra vez, na agonia que é o abandono, quero caminhar de novo à frente, e então nunca aconteceu nada, não vai acontecer, sou eu pelas luzes e demais metáforas. E depois não será a mim que a solidão engolirá, mas, cruel destino, não quererei saber do que me deixou de isco, não aconteceu mas eu recordo-me.

Não, não é dor, não é medo, não é tristeza, é apatia, abulia mais grave que a de que já padeço, fogem-me as decisões das mãos por minha mesma vontade. E tu, espectro de vontades que não são mais entidades próximas sequer das minhas, que já não roçam as canções que foram nossas em tempos.

canção vi – da troca de relações do alheio

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