Nunca passa o tempo como eu quero, que impaciência danada! Ouso fingir que sei tudo, não sei nada porque me restrinjo a mim e ao que me rodeia temporariamente. Se é só que estou, pois seja só que me sinto, nem sempre, nem sempre, bem o sei. Mas agora não sei se é das dores que me falta a companhia, mas sinto que todos têm alguém ao lado menos eu. Estupidez, por que estás agora a ser desconfiada, não chores, se não te ligam é então culpa tua, que mais queres? Consolo? Se calhar até é, mas que te servem palavras para te acalmar o sofrimento? O físico nem com medicamentos vai, o outro não to aplaca o coração, vil. Não sei de onde vem, estás bem, estavas bem, já te foste agora e resta-te tudo, resta-te o quarto vazio com os peluches desenhados a pó e as cores delineadas a nada, a música não te preenche porque falta lá alguma coisa, não sabes bem o que é. Até sabes, confessa, nem que seja a ti.

Tentas pedir ajuda e só te saem lamentos, que lamentos vãos, não vale a pena proferi-los, cala-te já! Não te quero mais ouvir! Não me contes todas as vezes que te saqueaste em busca de ouro, não há nada em ti de valioso. Neste momento é como se já tivesses caído, outra vez. Ou ainda não? Tentas levantar-te, de novo, outra vez, este mundo espera por ti. Seria bom que alguém neste momento te quebrasse a barreira de egocentrismo. Não sei se vale sequer a pena tentar compreender-te para te mudar. Já passou o tempo de mudança para ti, coisa ignóbil, deixa o inexorável levar-te para onde não alcances o dia ou a noite, remete-te para o ciclo das estações como se nunca houvesse mais que a má-hora em que sentes, se sentes é má.

Se escrever é assim tão difícil, canta-me. Canta, nunca tiveste vergonha de cantar, ainda para mais ao fim de tarde, quando o sol se põe e não há ninguém para te ouvir se não tu. Canta, canta contigo, nem que seja para ti, para não estares só no quarto vazio num dia vazio numa despedida vazia, para fingir que nunca conheceste as dores e para te certificares que as que sentes são tuas, que passam, que afinal nunca sofreste deveras, quiçá não saibas o que são mágoas. Mas lembras-te de vezes em que te explodia o coração. Não foram muitas, contudo. Ainda bem. Se continuares assim serás capaz de não passar por isto outra vez. Oh, que digo eu? Disparates. Passar pelo mesmo duas vezes é impossível, nunca passa o tempo duas vezes. Ou talvez passa demasiadas. Não sei, quero dizer tanto mas nunca sei o que dizer, é como se me encaramelassem as palavras e os sentidos na boca. Não posso ser sempre capaz de dizer o que penso, certo, mas posso tentar. Só que no momento nem são só as palavras, é o cérebro, a alma, o corpo, enrola-se tudo e perco-me em significados que não são os que almejo. Quanto de mal fará isso ao sentir que sou capaz de conquistar o mundo só com pensamentos, com um olhar através da janela com as persianas corridas pelo meio, com as árvores a bambolear-se e a perder-se na distância dos olhares indiscretos como são todos? Não espero contar tudo, mas queria contar ao menos o que penso que é relevante, ora, mas nem isso, como os textos se tolhem debaixo dos pés, tropeçam eles, caio eu, somos novelos perdidos no ruído de fundo que é o mundo. Não sei como me sentir.

Quando fizeres sentido avisa.

grito iv – das dores do ser.

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