E que agora lamentar quando não há nada para lamentar, porque já foi, deixou de ser, não será, creio eu. Já confirmei as teorias, não há regra sem excepção, eu sei, eis a excepção, por enquanto, por enquanto é excepção. Ficou tão para trás que agora é uma comichão incisiva, mas não lamento, não me arrependo, sim senhor Orgulho, claro senhor Orgulho, como viver os sete pecados sem os conhecer? Está tanto vento, não sei por onde começar.

You know, I used to live alone before I knew you.

E entretanto não ficou muito mais, porque agora já não é essa sintonia ambígua, não são os genes decididos à imberbe ignorância, agora é um resquício de um vestígio, um entrecruzar de significados; nenhum discurso quer dizer o que for, são todos ligados, todos um, todos juntos. Oh, que tarde é para estar a devanear, não é mais que tarde, pôr do meio-dia, encosta-se o sol aos cabelos e beija-os de brilho. Se ao menos fossem signos de convenções.

There was a time when you’d let me know
what is really going on below

E agora já não, que incoerência. Mais valia sermos desconhecidos levados pelo vento forte, ah! Antes fora isso, sim, antes o vento levasse os gritos e deixasse as canções. Não sei, não sei pois se isto é agora uma melodia ou uma praga, diz-me tu, ou dir-me-ias, se não fosses já tão ido, ido tal como o vento. O centro do universo está aqui e eu estou com ele, é do universo ou de mim, é do mesmo, eu sou o universo e o universo meu sou eu. Meu, mas que é mais relevante pois se não os espelhos de luzes apagadas que lançam farpas de sombras e recortam portas em que nunca toco, nunca posso tocar.

Maybe there’s a god above but all I’ve ever learnt from love
was how to shoot somebody who outdrew you

Eras tão próximo, à distância impalpável de um toque, tão perto que eu te tocava com a mente, com o bem e o mal, e agora não te sinto, não te vejo, não te oiço, talvez não estejas sequer aí. Derrubaram-se as cortinas velhas e remendadas e ergueram-se umas novas feitas de sonho, ou talvez ferro, não sei, não passo nenhum deles, nenhum é mais do que uma metáfora para o ser nada e o sentir nada. Não tentes ultrapassar-me naquele momento, nem neste, em nenhum, vou ser sempre mais, a verdade é essa, sempre essa, porque tu não és eu. Eu sou eu. E que mais? Não somos nós, pois não? Já não; eu sei, tu sabes, não tentamos já negar, não tentamos impingir palavras porque elas são preciosas, e a paciência também. Quem diria, que sensação a roçar o esplendor da noite — desmaiada. Toca o dia abafado e enublado — sem chuva. Toca o dessentir e a vontade de esquecer; vou ali banhar-me no Estige, já venho, ou talvez não, não me vou lembrar de ti. Quiçá não me lembrarei também de mim, não faz mal, já queria mudar, agora crio um novo eu, um ser diferente, porque é sempre bom ser diferente, não quero mais saber da moral e do sabor das estrelas. Gastei as convenções entre nós, não há nada em comum; a diferença é boa mas de diferenças só não se vive. Tomamos enfim caminhos diferentes — não lamento o passado, que amargurada seria esta nova eu, mas o passado é sempre um lar quando não foi mau, e há sempre uma ou duas tentativas de voltar a casa. Mas o tempo há-de curar mesmo isso (sim, porque é curar, não é, fechar uma saudade) e então              we might as well be strangers.

canção v – do final das relações.

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