Perdi tanto nestes momentos, foi-se tanto de mim embora, outra vez. Já morri duas vezes, e talvez morrer doesse menos. Ficar para trás não é para mim. É a antecipação, o correr à frente de todos com uma máscara-pele de alegria o que me deleita. É a felicidade que se apanha aí, às mãos cheias de nada e tampouco vazias.

Lanço-me dentro de mim para conter as palavras que me tentam escorrer amargas da boca, e enrolo-me em frieza como se tivesse frio — que bonito oxímoro. Não as consigo deter todas, essas palavras cobertas de fel que me corróem por dentro, mas as que saem disparam fazem ricochete e acertam de volta em mim, com mais força do que quando saíram, traspassando-me o coração com mágoa e deixando lá estilhaços aguçados.

Cai o mundo à minha volta e eu olho, até apenas faltar ser eu a cair, mas há sempre pequenos pedaços de mundo que me agarram e me sustêm e nunca chego a entrar em queda livre. Acho que tenho de agradecer a esses bocados que me impedem de cair.

grito ii – da morte da alma.

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